13 de mai de 2005

Japão

Eu morei um tempo no Japão. Eu fui com 9 anos, logo depois da eleição Collor x Lula.

Eu, apesar da minha avó ser japonesa, nascida lá, e do meu avô ser surdo e só falar japonês, não sabia falar nada além do "arigatô" e do "sayunará".
Fomos meus pais, eu e minha irmã, minha avó e meu avô.
O irmão da minha mãe, meu tio Bozó, já estava lá com a esposa, as filhas e meus avós maternos.
A gente morou juntos um tempo.
Essa fase foi legal. A gente andava de bicicleta, brincava, ia passear... o dia todo. A gente até tentava aprender japonês, eu aprendi a escrever meu nome, mas não entendia nada, ainda. Até abril, que é quando começam as aulas lá, a gente continuou nessa mamata.
Aí veio. Escola... que horror. Lá, escola é período integral. Imagina ficar em um lugar, 8 horas por dia, sem entender uma palavra sequer? Era assim. Eu não sabia onde era o banheiro, nem como perguntar.
Era muito diferente. Era um professor só, pra todas as matérias. Quando dava hora do almoço, uma turma de alunos tinha que ir buscar as panelas, os talheres, os pratos, o leite. E tinha que servir. Era uma semana cada grupo.
E comia aquela comida esquisita, que a gente não sabe o que é e nem sabe perguntar, toma o leite, leva a louça pro balde. A turma que serviu pega a louça, leva até à cozinha.
E logo depois do almoço, 15 minutos de descanço. A minha hora favorita do dia. Ficava olhando pela janela, sem ouvir nada, sem falar nada...
Mas, como tudo que é bom dura pouco, depois do descanço tinha a hora da limpeza. Cada grupo ia limpar um lugar: banheiro, sala de aula, quadra, jardim... Era o inferno.
Aí voltava a aula. E casa.
Eles tinham muita frescura: não pode usar brinco, não pode levar nada além do material pra escola (tipo bala, revista, carta, nada), pode levar uma garrafa térmica com chá, mas só sem açúcar, tem que levar um lencinho de pano e um pacote de lencinho de papel todo dia, tem que ir e voltar da escola pelo caminho determinado pela escola, com um grupo de pessoas que moram na mesma região, não pode parar no meio do caminho pra nada, se faltar o professor liga pra casa, saber o que está acontecendo...

Uma hora, a gente acostuma. E aprende a língua. Aí a coisa fica mais fácil. Tinha uma amiga, a Tomomi, que ainda manda e-mail, foto, carta.
Chegou uma hora em que ninguém conseguia dizer se eu era japonesa ou brasileira. Eu só falava japonês, pensava em japonês, sonhava em japonês.

Nunca gostei de lá.

Uma vez, fui no dentista com a minha mãe, pra tentar traduzir pra ela o que o dentista tava falando. Eu não sabia traduzir nem entendia um monte de coisas. O cara gritou comigo. Bobão.
Saúde, no Japão, é uma merda. O exame de vista é daqueles, com as letras num papel, que vão ficando menores. Uma beleza.

Teve uma outra vez, que eu tava indo pra escola, de chapéu amarelo (posto foto outro dia, quando achar uma) e terninho (o uniforme) e tropecei no guarda-chuva que estava pendurado na minha mochila vermelha (padrão: vermelho=menina, azul=menino).
Caí feio, ainda fiquei escorregando pelo chão de pedras. Resultado: hospital.
Chegando no hospital, o médico perguntou se eu tinha sido atropelada. hhahahahahahahahha. Pra ver como foi feia, a coisa.

No comecinho, nos primeiros meses (sim, meses) de aula, minha mãe e minha avó paterna ficavam no pátio da escola, esperando a gente. O dia todo.
Elas eram meu refúgio. A única coisa que me confortava naquele lugar.

Quando minha avó paterna morreu, lá no Japão, a gente teve que cremá-la. Lá, todo mundo é cremado, queira ou não. Aí, o homem perguntou quem ia pegar os ossos e colocar na caixinha. Como eu era a querida, adivinha quem teve que fazer?
Ah, pelo amor de Deus... Eu tinha 10-11 anos! Tive pesadelo por uma semana.
E depois, os ossos ficaram em casa até meu vô voltar pro Brasil, pra enterrar.

Meu vô voltou, algum tempo depois viemos eu, minha mãe, minha irmã e minha vó e meu vô maternos.
Ai, que horror. Viemos de Korean Airlines, porque era a mais barata. Acho que foram 3 dias de viagem. E as aeromoças eram estúpidas porque eu não entendia Inglês. Snif snif snif snif.
Minha mãe brigou com uma delas, porque ela perguntou (provavelmente) "Chicken or fish?" E eu não entendi. Ela jogou a comida na mesinha. Aí, minha mãe heroína brigou. Hhehehehehehehehhehe. Sempre me salvando.

Ah... tem duas coisas de lá que me dão saudades: doce e mangá. Ahhhhhh.... Que saudades. Os doces... O sorvete do shopping Hunter, que delícia!!!
E os mangás... Toda semana eu tinha um novo... Aqui não dá. Sai muito caro...
Mas eu ainda compro, de vez em nunca, lá na Liberdade.

Mas é só. De lá, mais nada.

4 comentários:

Luciana disse...

Nossa, eu era bem pequenina, mas lembro da maioria das coisas q vc escreveu sobre o Japão, principalmente da escola... a hora do almoço realmente era horrivel... so Deus sabe como eu odiava ter q servir almoço e depois limpar a sala. Mas a parte q eu mais odiava era a hora da educação fisica... a professora sempre me obrigava a fazer coisas q Deus sabe q eu naum conseguia fazer de jeito nenhum... enfim, por causa disso, quase todas as aulas de educação fisica eu ia pra enfermaria dizendo q estava com dor de cabeça, me sentindo mal e outras coisas... hehehe... mas apesar da escola, eu gostava de la... adorava os desenhos q passavam na televisão, os mangas, os cdzinhos q a gente comprava com os temas dos desenhos... Era divertido... Também adorava ir ao shopping andar naqueles ursos gigantes, ir ao karaoke... lembra??? Apesar de tudo, eu acho q foi uma fase muito boa da minha vida...

Beijos

thais disse...

Eu tb lembro. Mas eu só gostava do Karaokê box.
Educação física?? nhaca. uma vez fui até sem o shorts debaixo da calça pra ver se me safava, mas nada. Até olharam debaixo da minha saia. E tive que pegar emprestado. Snif snif snif snif...

Bhuda disse...

moreco... um dia iremos dar uma passeio por lah hein... mas só passeio pq morar.. ehehhehe

Anônimo disse...

Ai Thá..quanto tempo ficou por lá?
mas mesmo assim acho que foi uma exoeri~encia única na vida de qq.um, o importante é que v. cresceu, sabe outra lingua...outra cultura, encare pro lado positivo querida!
obom é que v. voltou r quanta coisa boa v. contruiu hein????
nossa, que mulher de fibra, de coragem, de coração...
beijinhos
*Sô*